Açúcar é o novo tabaco?

anti11

Abaixo, a tradução da contundente opinião do médico cardiologista britânico Aseem Malhotra, estudioso do efeito da dieta nas doenças cardiovasculares, a respeito do consumo de açúcar e suas consequências, publicada no site médico MEDSCAPE.

“Fui recentemente convidado a falar para o parlamento britânico na “cúpula sobre açúcar”. Este evento foi convocado por uma dona de casa, chamada Rend Platings, uma mãe muito incomodada pela revelação recente do Gabinete Médico Inglês que, pela primeira vez, os filhos viverão menos do que os pais, neste país, devido à epidemia de obesidade. Esta mulher lançou uma campanha, “Sugarwise” (algo como “sensatez com açúcar”), para ajudar os consumidores a identificar alimentos com adição de açúcar.

No evento, estiveram presentes representantes da indústria alimentícia, do grupo Jamie Oliver, do departamento britânico de saúde e da associação de produtores de refrigerantes, entre outros.

Eu comecei saudando o governo pelo anúncio de uma nova taxa de 20% para as bebidas açucaradas, que entrará em vigor em 2017. E também saudei a recente recomendação da OMS para que todos os países procurem taxar as bebidas açucaradas em pelo menos 20%, a fim de reduzir a epidemia global de diabetes e obesidade. Não devemos esquecer que o declínio substancial do consumo de tabaco nas últimas três décadas foi o fator isolado mais importante para o declínio da mortalidade cardiovascular durante este período, e isso somente ocorreu depois de medidas legislativas direcionadas contra a acessibilidade, avaliabilidade e aceitabilidade de fumar.

EFEITOS NA SAÚDE

Pesquisadores de Oxford estimaram que uma redução de 15% no consumo de açúcar através de impostos evitariam 180.000 casos novos de obesidade por ano no Reino Unido e um número muito maior de novos casos de sobrepeso. Mas as evidências científicas revelam que os efeitos benéficos para a saúde de toda população obtidos com um imposto destes vão além de uma mera redução de calorias:

  • Uma análise econométrica de 175 países revela que para cada 150 calorias diárias de açúcar a mais disponíveis para consumo (ou uma lata de refri) há aumento de 10% na prevalência de diabetes na população (isto quando comparado a 150 calorias a mais de gordura ou proteína, ou seja, sem aumento total de calorias, apenas mudando sua fonte).
  • A prevalência de diabetes nos EUA aumentou 25% entre 1988 e 2012, tanto em obesos quanto não obesos, o que indica que diabetes não é uma condição relacionada puramente à obesidade.
  • Um estudo de alta qualidade mostrou que há o triplo de mortalidade cardiovascular entre adultos americanos que consomem mais de 25% de suas calorias a partir de açúcar comparados aos que consomem menos de 10%.
  • Os efeitos positivos de reduzir consumo de açúcar parecem ser rápidos. Em um estudo em crianças africanas e latino-americanas com síndrome metabólica (obesidade, alteração no colesterol, triglicerídeos, glicemia e até pressão alta), mantendo o total de calorias e carboidratos idênticos, reduzir a proporção de calorias oriundas do açúcar de 28% para 10% reduziu significativamente triglicerídeos, colesterol ruim, pressão arterial e níveis de insulina, em apenas 10 dias. Novamente, sem redução total de calorias, apenas trocando açúcar por outros carboidratos.

QUANTO AÇÚCAR É SEGURO?

Então, quanto açúcar nós precisamos? Para propósitos de saúde, o consumo ótimo é zero. Açúcar adicionado não tem necessidade biológica e então, por definição, não é um “nutriente”. É o seu  componente frutose (açúcar comum é 50% frutose e 50% glicose) que preenche os critérios os quais justificam a sua regulação (pelo governo) no comércio e consumo: é tóxico, tem potencial para abuso e traz impacto negativo para a sociedade.

Quanto açúcar é seguro? Consumir apenas pequenas quantidades de açúcar livre, como o açúcar adicionado e o açúcar presente em sucos de frutas, mel e xaropes, em uma base diária, já tem efeitos deletérios na doença não transmissível mais comum globalmente: cáries dentárias. O tratamento de doenças dentárias é responsável por 5-10% dos gastos de saúde em países industrializados, e, no Reino Unido, a cárie é a causa número um de dor crônica e internação hospitalar em crianças pequenas.

Como foi apontado por pesquisadores da escola de Londres para medicina tropical e higiene, existe um forte argumento para que a OMS recomende o limite máximo diário de açúcar para não mais de 3% das calorias (cerca de três colheres de chá). A média de consumo no Reino Unido e EUA, porém, é 4 a 7 vezes maior. Isto não é surpreendente para quem sabe que é quase impossível para o consumidor evitar açúcar, já que ele é muito prevalente nos alimentos e quase sempre está escondido. Nos EUA, quase metade de todo consumo de açúcar vem de alimentos onde normalmente não se imagina que exista açúcar, como por exemplo, ketchup, molhos de saladas e pão. Um terço do açúcar consumido vem de bebidas doces (sucos, refrigerantes, chás), e apenas um sexto provém dos alimentos que normalmente as pessoas classificam como “porcarias“ (chocolates, cookies, sorvete). Portanto, para reduzir de maneira importante o consumo de açúcar, não basta parar de comer “porcarias”, é preciso ir além.

Nos EUA, não existe uma referência de consumo de açúcar nos rótulos dos alimentos; na Europa, existe, mas não diferencia entre adultos e crianças. Uma lata de cola normal tem 9 colheres de chá de açúcar, que é o triplo da recomendação de 2009 do departamento de agricultura norte-americano para uma criança de 8 anos. As diretrizes do Reino Unido para rótulos descrevem essas 9 colheres como 39% da recomendação diária. Tendo como base esta recomendação completamente irreal, é compreensível que pais achem seguro oferecer para seus filhos até 2,5 latas por dia!

A indústria alimentar sempre argumenta que o publico deve ter “responsabilidade pessoal” quando escolhe o que comer, tentando transferir sua culpa na epidemia de obesidade para o consumidor. A verdade é que o publico não tem o conhecimento necessário devido a rótulos confusos e fica sem opções, já que o açúcar é adicionado em cerca de 80% dos alimentos.

 INDÚSTRIA DO FUMO, INDÚSTRIA DO AÇÚCAR:

O fato de terem se passado 50 anos desde que as primeiras conexões entre o tabagismo e o câncer de pulmão foram publicadas no Jornal Médico Britânico até que uma regulação efetiva a respeito do tabaco fosse introduzida é uma prova de como a grande indústria do fumo (“Big Tobacco”) foi capaz de defender sua prática. A chave para estratégia foi negar, semear dúvidas, confundir o publico, comprar lealdade de cientistas e armar políticos aliados.

As similaridades entre a “Big Tobacco” e a indústria do açúcar são perturbadoras. Recente publicação no Jornal Americano de Medicina Interna mostrou que a indústria do açúcar pagou três influentes cientistas de Harvard para minimizar o papel do açúcar no desenvolvimento de doenças cardíacas e colocar a culpa na gordura. Ano passado, o New York Times publicou que a Coca-Cola pagou milhões de dólares para pesquisas que minimizaram impacto das bebidas adoçadas na obesidade e tentaram impor a falta de exercícios como principal fator. E, de acordo com um ex-ministro da saúde do Reino Unido, a defesa incorreta de uma dieta pobre em gorduras e rica em carboidratos e açúcares, por “cientistas e políticos moralmente corruptos que se permitiram ser manipulados por fabricantes de alimentos” é a grande culpada pela obesidade global.

Os recentes chamados da OMS para taxar as bebidas açucaradas são muito bem vindos para aqueles que fazem campanhas de saúde. A mensagem para o publico, porém, precisa ser mais clara. Não há nada errado em uma escapada ocasional, mas açúcar não tem lugar como parte de uma dieta saudável balanceada. Assim como ocorreu com o cigarro, qualquer medida adicional para reduzir consumo de açúcar, como por exemplo, proibir sua propaganda e dissociar bebidas doces de eventos esportivos, terá impacto adicional em melhorar a saúde da população em um curto período de tempo.

A ciência já sabe mais do que o suficiente, as evidências contra o açúcar são esmagadoras. Açúcar É o novo tabaco, portanto vamos começar a tratá-lo da mesma maneira que tratamos o tabaco!”

Fonte:

http://www.medscape.com/viewarticle/871064


  1. No Comments


  2. Leave a Reply